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publicado em 11 de dezembro de 2020

PASTO QUE DÁ LUCRO: COLETA E AMOSTRAGEM DO SOLO

PASTO QUE DÁ LUCRO: COLETA E AMOSTRAGEM DO SOLO

Um guia de tudo que é necessário para garantir a qualidade da coleta e o planejamento em tempo.

Para engordar o boi é necessário entender sua demanda por alimento e como ele responde a determinada dieta. Com o pasto não é diferente, sem entender o que ele demanda, dificilmente terá um desenvolvimento saudável. Para expressarem seu potencial produtivo as plantas precisam, necessariamente, que os nutrientes estejam disponíveis em quantidade e em equilíbrio no solo.
A Lei de Liebig estabelece que o desenvolvimento de uma planta será limitado pelo nutriente deficitário, mesmo que todos os outros elementos ou fatores estejam presentes.

O processo de entender quais nutrientes estão disponíveis no solo começa com uma amostragem bem feita. A amostragem tem por objetivo caracterizar a fertilidade de um talhão ou área, de grande dimensão, por meio de uma pequena fração de solo.

Entender as dimensões do processo e a importância de seguir as recomendações pode fazer toda a diferença nas margens da operação. Imagine uma área de 5 hectares, e uma camada de 0-20 cm. O volume de terra destes 5 hectares nesta camada pesa cerca de 2.000 toneladas (se usarmos uma densidade de 1 g/cm³), a amostra que chega ao laboratório pesa cerca de 500 g, e a amostra que é efetivamente analisada pesa cerca de 10 g. Portanto, é fundamental que a amostragem de solo seja realizada de maneira criteriosa, desde a definição do local de amostragem até o envio para o laboratório, para garantir que a amostra seja representativa do pasto ou talhão em questão.

E é pensando nisso que desenvolvemos este guia de amostragem de solo para análise laboratorial para recomendação de correção e adubação em pastagens.

Onde coletar as amostras de solo?

O primeiro ponto a ser definido é onde amostrar. Não raramente, as amostras de solo são coletadas por região da fazenda ou, em alguns casos, observando somente a cultura, sem distinguir outras características necessárias, o que leva a falha na interpretação do resultado, seguido de ineficiência das estratégias de correção e adubação. Os principais fatores a serem considerados para definir o local de amostragem são:

  • HISTÓRICO: Culturas e uso anterior, produtividade, etc;
  • TOPOGRAFIA DO TERRENO;
  • FINALIDADE: Feno, silagem, pastejo, de acordo com nivel de intensificação, etc;
  • ESPÉCIES Espécie forrageira ou cultura agrícola.

Com relação ao histórico de produção, é fundamental amostrar separadamente solos com diferentes culturas anteriores e regiões do pasto com registros ou suspeitas de produtividades diferentes, mesmo que estejam numa mesma delimitação de cerca. Esse ponto é crucial para áreas que serão reformadas, uma vez que a cultura anterior influencia na característica do solo e, por isso, deve ser amostrado separadamente. A topografia do terreno também pode afetar nas características do solo, por meio de alterações das frações físicas do solo (proporções de argila, silte e areia), e locais com diferentes produtividades. Normalmente, áreas de baixada acumulam partículas de solo das partes mais íngremes e retém maior umidade, que alteram as características do solo, devendo, portanto, compor uma amostra separada. A finalidade de uso diz respeito ao objetivo para o qual a área será usada. A forma como a cultura será usada, como por exemplo se silagem ou para pastejo, afeta na extração de nutrientes do solo, necessitando de um planejamento específico para a finalidade e metas. Da mesma forma, as espécies forrageiras apresentam níveis diferentes de tolerância a acidez do solo e necessidades de nutrientes diferentes, devendo coletar amostra separada para cada região dos pastos com espécies forrageiras diferentes.

A discriminação de áreas a serem amostradas devem ser analisadas com o auxílio de um técnico, para evitar excesso ou falta de amostras a serem coletadas.

Essa mesma analogia de diferenciação de locais de amostragem, quando possível, devem ser aplicadas para auxiliar na divisão de pastos e talhões na fazenda, buscando locais mais homogêneos para que seja possível aplicar uma tecnologia em que a respostas sejam otimizadas. Pastos que apresentam áreas distintas, raramente são usados da melhor forma, vistos que na grande maioria dos casos a recomendação de adubação é feita para o pasto, mesmo que este apresente grande variação. O resultado de pastos desuniformes, muitas vezes, reflete em subutilização do sistema produtivo e dificuldades em manejo.

Quando amostrar o solo?

A amostragem de solo em áreas de pastagem deve ser realizada, preferencialmente, ao final do período chuvoso. Na região de Brasil central esse período vai de março a maio. No final do período das águas, o solo ainda está úmido (o que facilita a amostragem) e a amostra é enviada para o laboratório bem antes das próximas correções e adubações. Como a correção do solo deve ser realizada antes das adubações, quanto antes tivermos a análise, melhor para programar o planejamento de correção e adubação das pastagens, em busca de melhores preços e tempo adequado para planejar e realizar as operações.

Utilizamos dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de Insumos Agropecuários para o estado de Mato Grosso, de janeiro de 2009 até dezembro de 2019, deflacionados pelo IGP-DI, para calcular a média mensal de preços da ureia e do calcário dolomítico e entender o comportamento de preços destes insumos ao longo do ano. Fica claro que a partir de março o preço dos insumos, historicamente, estão em seus patamares mais baixos. O resultado está no Gráfico 1:

Gráfico 1: Ureia e calcário2009-2019, preços deflacionados pelo IGP-DI, média mensal

Fonte: Conab. FGV. Elaborado pelo autor.

Quais profundidades amostrar o solo?

As coletas de solo devem ser realizadas em profundidades de 0-20 cm e 20-40 cm. A análise de 0-20 cm é usada para recomendações de correção e adubação de solo nas camadas superficiais, enquanto as amostras de 20-40 cm serão usadas para recomendação e análise da camada subsuperficial do solo.

Qual ferramenta usar para amostrar o solo?

Diversas são as opções de ferramentas para coleta de solo. É imprescindível que as ferramentas estejam limpas anteriormente ao uso para amostragem, ou seja, livre de contaminações que irão interferir na amostra.

Quantas amostras por piquete? Como coletar?

Recomenda-se realizar a coleta em 15 a 20 pontos por amostra. Deve-se planejar o caminhamento no pasto ou talhão de forma que sejam coletadas amostras de todas as regiões do local de amostragem, conforme o mapa a seguir exemplifica.

Em cada local de amostragem, retirar uma subamostra da camada de 0-20 cm e, em seguida no mesmo ponto, de 20-40 cm. Essas amostras deverão estar em baldes separados. Após finalizar a coleta de todos os pontos, deve-se homogeneizar as subamostras para compor uma amostra de 350-500g, que deverá ser colocada em um saco plástico para ser encaminhada ao laboratório.

Como identificar a amostra para enviar para o laboratório? Qual (is) análise (s) solicitar?

Deve-se identificar os sacos plásticos com as informações necessárias para análise, sendo elas:

  • Nome do solicitante;
  • Nome da Fazenda;
  • Município;
  • Endereço para envio dos resultados;
  • Número da amostra;
  • Pasto ou talhão;
  • Profundidade;
  • Cultura;
  • Data de coleta do solo.

Também deverá ser informado ao laboratório a análise solicitada. Nesse ponto é de fundamental importância consultar um técnico, de preferência o técnico que irá interpretar o resultado laboratorial, para determinar as análises a serem solicitadas. As análises podem ser físicas, químicas (macro e micronutrientes), análise de fósforo por resina e/ou Melich, frações da matéria orgânica ou não, entre outros tipos.

Realizar a amostragem do solo da maneira correta com os devidos cuidados, na época adequada, para conseguir planejar a compra dos insumos necessários, pode fazer a diferença na margem da operação. Ficou alguma dúvida ou sugestão? Entre em contato conosco!

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    GUILHERME PORTES SILVA

    Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Possui mestrado, doutorado e pós doutorado em Ciência Animal e Pastagens pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo (ESALQ/USP). Fez o doutorado sanduíche no Institut National de la Recherche Agronomique (INRA/França). Possui especialização em MBA em Agronegócio e Gestão de Negócios, pelo PECEGE (ESALQ/USP). Tem experiência na área de Forragicultura e Pastagens, principalmente nos seguintes temas: ecofisiologia e morfogênese de plantas forrageiras, manejo do pastejo e comportamento ingestivo de bovinos em pastejo.