Blog Canivete

publicado em 14 de dezembro de 2020

CARNE BOVINA: A QUALIDADE COMEÇA DENTRO DA PORTEIRA – PARTE 1

Qualidade de dentro da porteira até a nossa mesa. Esta foi a temática do webnar iBeef: Projeto Carne na Mesa, que ocorreu no dia 15 de agosto de 2020, uma parceria da Nutripura com o iBeef. O evento reuniu grandes nomes de diferentes elos da cadeia da carne bovina:

O Prof. Dr. Flávio Augusto Portela Santos, da ESALQ/USP, abriu o evento com a temática “Estratégias nutricionais para antecipar a idade de abate e garantir a carne de qualidade”.

Em seguida, o Prof. Dr. Sérgio Bertelli Pflanzer Júnior, da UNICAMP, palestrou sobre “Qual é o “Everest” da qualidade da carne”.

Para finalizar o evento, Andréa Mesquita, CEO do Território da Carne, articulou a palestra “Carne gourmet “modismo” ou tendência?”.

Se você perdeu o evento, não se preocupe. Nós preparamos um resumo de cada palestra. E se você quiser assistir o conteúdo completo, ele está gravado e o link está ao final do artigo!

O objetivo da palestra foi explorar as possíveis estratégias nutricionais durante a cria, recria e terminação que favorecem a produção de animais com carcaça e carne de qualidade. Ou seja, como colocar um animal jovem e bem acabado no frigorífico.

Segundo o Professor Flávio Portela, existem elementos que compõem uma carcaça de qualidade, que são diretamente afetados por diversos fatores, como:

  • Genética: pré disposição herdada para determinadas características;
  • Sexo: usualmente fêmeas são mais precoces que machos;
  • Peso maduro: animais de maior peso maduro e maior tamanho corporal são mais tardios;
  • Nutrição: desde a fase fetal, passando pelo crescimento até a terminação, tem efeito direto no grau de acabamento;
  • Peso de entrada no confinamento;
  • Peso de carcaça quente.

O cuidado pré natal também pode afetar a qualidade do produto final, conforme explica, através da formação dos tecidos (miogêneses, fibrogêneses e adipogêneses).

É apresentado ainda, em detalhes, como a formação e crescimento dos tecidos funciona, qual o objetivo do nutricionista animal que quer produzir uma carcaça adequada e de qualidade e como manipular o processo de deposição de gordura para evitar o excesso de gordura subcutânea sem comprometer o marmoreio.

“O processo de deposição de gordura intramuscular começa com o animal ainda na fase jovem e vai se acumulando, tornando-se visível em fases mais avançadas. A questão do marmoreio não é o processo final de maturação do animal em terminação, é um processo cumulativo.

Uma vez que os adipócitos se formam ao final do período fetal até 250 dias do pós natal, vem sendo estudado se através da nutrição nós conseguimos – ou não – estimular a formação destes adipócitos (intramusculares) sem levar a formação excessiva de adipócitos da gordura subcutânea. Estes experimentos são chamados de “impressão” do marmoreio. É a partir dos três meses de vida (pós desmama precoce) até os 250 dias de vida a janela quando existe a possibilidade de realizar justamente esta impressão do marmoreio.

Conforme um experimento demonstrado na palestra, o qual separou bezerros desmamados com 105 dias de vida em dois grupos:

  • Grupo que continuou no pasto junto com as mães;
  • Grupo que foi confinado até os 250 dias de vida.

Quando atingiram 407 dias de vida, o grupo do confinamento atingiu uma média de 394,7 kg, 22,3 kg a mais que os animais que ficaram no pasto.

Agora é quando fica mais interessante o experimento. Os dois grupos apresentaram a mesma espessura de gordura subcutânea. Porém o escore de marmoreio do grupo que foi confinado até os 250 dias de vida foi 24,51% maior!

O regime nutricional consegue manipular também o peso maduro. Quando o bezerro é desmamado e entra em confinamento para ser abatido com 12-14 meses de idade e vem em um ritmo de ganho de peso acelerado desde o nascimento, esse animal chega com um teor de gordura subcutânea desejada mais leve, ou seja, mais precoce.

Agora, se o bezerro é desmamado, recriado durante a primeira seca e as águas e só então é terminado em confinamento ou semi-confinamento para ser abatido aos 24 meses, esse animal vai chegar no mesmo grau de acabamento que o animal de 12 meses, porém com um peso mais alto.

A restrição energética no crescimento sem restrição de proteína permite ao animal continuar depositando proteína a taxas normais, com menor deposição de gordura. Esta é uma maneira de aumentar o peso maduro para abater o animal mais pesado.

Quando pensamos no bezerro que desmamou e vai enfrentar a primeira seca, a mentalidade do pecuarista brasileiro tem mudado. Cada vez mais se fala em estratégias de suplementação não somente para manutenção, mas sim para ganho de peso. Este bezerro costuma chegar na fazenda com um ágio muito caro e se depara com um pasto de qualidade muito baixa, o que torna esta primeira seca tão crítica para seu desempenho e resultado final. Em experimento demonstrado durante a palestra foram separados três grupos de animais:

  • Aqueles que não foram suplementados (a não ser com mineral): os animais perderam cerca de 100g por dia, e conseguiram ingerir 9,96 Mcal de Energia Digestível;
  • Suplementados com 115 g PB (32% PB) : A adição de Proteína Bruta na dieta estimulou o consumo de matéria seca, já que a PB auxilia o desenvolvimento de bactérias e fermentação bacteriana. Com esta pequena adição, o animal já consumiu 2,1 kg a mais de matéria seca e 60% a mais na ingestão de Energia Digestível;
  • Suplementados com 230 g PB (34% PB): O dobro da dose de PB levou a um aumento de  mais 28% de Energia Digestível.

No período de chuvas, mesmo em pastos de alta qualidade os animais respondem a suplementação e, dependendo do pasto, a estratégia adotada pode ser exclusiva energética. Em pastos não adubados deve-se adotar estratégias de suplementação proteica-energéticas.

Agora, como a suplementação pré terminação afeta o desempenho, o ganho de peso, a eficiência alimentar e a qualidade de carcaça dos animais em confinamento?

Para explicar esta pergunta, foi utilizada uma metanálise – Lancaster et al. (2014) – que analisou 29 experimentos (23 artigos) em que todos os animais passaram por uma desmama normal (6 a 8 meses), foram recriados em pasto de gramíneas ou confinados com alta forragem e terminados com a mesma dieta em confinamento.

Observou-se que estes animais suplementados chegaram mais pesados no confinamento e apresentaram um maior consumo de Matéria Seca e ganharam menos peso com pior eficiência alimentar. Porém, este animal foi capaz de reter a maior parte do peso que apresentou na entrada (80-85% do peso adicional).

Ou seja, o animal não suplementado ganha mais durante a fase de confinamentomas não o suficiente para compensar aquele “a mais” que o animal suplementado entrou no confinamento. O animal que foi suplementado morreu mais pesado, inclusive com uma maior área de olho de lombo.

Falando um pouco sobre a manipulação de dietas de confinamento e qualidade de carcaça, logo vem a questão do volumoso. Como o consumo se comporta conforme adicionamos volumoso na dieta? O animal passa a comer mais para manter a ingestão energética. Segundo levantamento do Professor Millen da UNESP de Dracena, o Brasil ano a ano reduz a quantidade de volumoso utilizado em dietas de confinamento. Em sua última publicação, a média do confinamento no Brasil é de 16,75% de volumoso, sendo a silagem de milho a principal fonte utilizada (69,4%) seguida do bagaço de cana (11,1%) e da silagem de capim (8,3%).

Em experimento realizado no Centro de Pesquisa Nutripura, o CPN, com 720 machos nelore, foram testadas dietas com diferentes níveis de feno de Campim Tamani de baixa qualidade (5,3%, 9,3%, 13,3% e 17,3%). Conforme o nível de inclusão de feno aumentou, o consumo de MS também aumentou até um ponto que é estabilizado. Por mais que a dieta tenha “piorado” com a adição de feno passado, o consumo aumentou tanto que o animal também ingeriu mais energia até nível de inclusão de 9,3% de feno (7% de FDN). Se a adição de feno tivesse continuado, o ganho de peso iria cair, já que o resultado foi uma função quadrática. A eficiência alimentar diminui conforme aumenta a inclusão de fibra na dieta.

Como 70% do milho é amido, o desafio é aumentar sua digestão, seja por meio da hidratação do grão ou a floculação. Conforme experimentos demonstrados na palestra quando melhoramos o aproveitamento do amido do grão, o consumo cai a medida em que o ganho de peso aumenta.

Em relação a gordura na dieta, segundo metanálise de 32 experimentos (1966 a 2011) – Souza (não publicado),  com uma inclusão média de 4,3% na dieta leva a redução – média de 9,9% – no consumo de MS. A eficiência alimentar aumentou 12,1% em média (GPD/CMS). O aumento de ganho de peso não foi significativo, porém como a eficiência alimentar foi melhor fica claro o efeito da gordura na dieta.

Para fechar a palestra, o Prof. Flávio Portela Santos deixa algumas mensagens:

  • “Garanta boa nutrição da vaca no terço médio para o final da gestação”;
  • “Intensifique o programa de recria: animais de sobreano pesados na entrada no confinamento tem vantagem no processo”;
  • “Formule dietas com alta densidade energética e bem balanceadas”;
  • “Explore o ganho de carcaça na fase de terminação”;
  • “Eleve o peso de carcaça de animais precoces visando máxima lucratividade”.

Mantenha-se atualizado! Cadastre seu contato aqui, vamos te informar sempre que sair um novo conteúdo, em primeira mão!

    Para assistir a palestra na íntegra é só conferir o vídeo abaixo:

    Pedro Silvestre de Lima

    Vivo a pecuária desde que nasci. Já fui monitor do curso Especialização em Nutrição de Ruminantes e Pastagens da ESALQ/USP durante dois anos e meio, trabalhei com consultoria técnica, empreendedorismo, mercado e inovação na pecuária de corte. Hoje atuo no fomento e disseminação de informações úteis e relevantes, com foco no lucro sustentável para o produtor rural.