Blog Canivete

publicado em 14 de dezembro de 2020

A SECA CHEGOU E PRECISAMOS MANTER AS VACAS NA FAZENDA… O QUE FAZER?

A estação seca do ano chegou e diferentemente do que se faz nos sistemas de recria e terminação onde tem-se a oportunidade de confinar os animais, na cria tal opção mostra-se menos atrativa na maioria das vezes. Embora o semiconfinamento e até mesmo confinamento das matrizes possa se mostrar viável e até indispensável em condições específicas, via de regra estes animais permanecem em condição de pastejo devido principalmente ao menor custo da matéria seca e também do custo fixo, pois desta forma o capital empatado em estrutura é menor.

Não é novidade que durante a seca a qualidade e disponibilidade da matéria seca de pasto diminuem, fazendo agora com que o desafio seja ainda maior. Essa condição é imposta pela natureza e precisamos conviver com ela, porém técnicas de manejo de pasto e de suplementação possibilitam a convivência harmoniosa com tal situação.

Segundo dados do Institudo Mato-Grossense de Economia Agropecuária – IMEA, o preço da arroba do bezerro de 8 meses (165 kg) superou pela primeira vez desde que se tem dados o custo de produção da cria (R$/@). Este cenário ilustra a importância de conseguir um bom aproveitamento das vacas agora nas secas, e é justamente o que discorremos durante o artigo.

Fonte: Elaborado pelos autores. Adaptado de IMEA.

Segundo Ferrel & Jenkins (1985) cerca de 75% de toda energia dietética consumida para produção de carne é destinada para atender às exigências de mantença das matrizes, as quais representam aproximadamente 31% do rebanho bovino brasileiro (Calegare, 2004), o que representaria cerca de 65-70 milhões de cabeças (Vaconcelos e Meneghetti, 2006), mostrando portanto o impacto que as matrizes geram para a cadeia da carne, que é iniciada com as mesmas.

Tendo por base um sistema de estação de monta tradicional (como exemplificado na Figura 1) do Brasil Central, tem-se a concentração de partos em Outubro, concentração de concepção em Dezembro – Janeiro e concentração da desmama em Maio – Junho, quando encerra a fase de transição Águas- seca e inicia-se a estação Seca de fato, agora com as vacas sem as crias ao pé, porém no segundo terço da gestação – com 5-6 meses de prenhez. Considerando um início da transição Seca-águas apenas em Setembro, se confirma que também o terço final de gestação ocorrerá ainda na estação Seca.

Figura 1: Ciclo reprodutivo tradicional do Brasil Central e disponibilidade de forragem ao longo do ano.

De uma forma geral os Sistemas de Exigências Nutricionais de bovinos de corte consideram exigência de gestação para vacas apenas durante o terço final de gestação, quando ocorre 75% do crescimento fetal. De fato, o terço final da gestação é o que demanda maior quantidade de nutrientes para sustentar o crescimento fetal e de todos os tecidos envolvidos no processo gestacional, o que não significa que as fases anteriores possam ser negligenciadas, uma vez que esta matriz está tendo acesso a uma dieta pouco nutritiva na maioria das vezes (pasto de seca).

Gráfico 1: Curvas de crescimento estimado de peso fetal de dois bezerros até 270 dias de gestação.

Fonte: Elaborado pelo autor. Adaptado de Sorenson Jr & Beverly (1979).

A ideia de que a alimentação materna poderia afetar o desenvolvimento de seu futuro filho após o nascimento já é explorada há mais tempo na medicina humana, e tem-se hoje o pleno conhecimento de que tal conceito é também aplicado para vacas de corte e seus futuros bezerros, sendo chamado de Programação Fetal.

É durante o segundo terço da gestação (período de seca) que ocorre a maior parte da miogênese (formação do tecido muscular) e inicia-se a adipogênese (formação do tecido adiposo) do feto bovino (Du et al., 2010). Ocorre que o aumento do número de células que originarão o tecido muscular e, portanto, resultará em produção de carne, só ocorre de forma significativa até o oitavo mês de gestação e após este período todo aumento do tecido muscular ocorrerá apenas pelo aumento do tamanho das células musculares que foram previamente formadas. Assim sendo, caso haja uma restrição alimentar severa da vaca durante a gestação, o seu futuro bezerro já nascerá com uma limitação incontornável para a produção de carcaça, além da possibilidade do comprometimento do desenvolvimento intestinal (Duarte et al., 2013) e de formação de gordura intramuscular (Du et al., 2013), conhecida como marmoreio.

Figura 2: Efeitos da restrição alimentar da vaca na prole.

Fonte: Elaborado pelo autor. Adaptado de (Du et al., 2013).

Além do possível efeito negativo no desenvolvimento do futuro bezerro, a restrição alimentar da vaca pode também afetar a capacidade reprodutiva da sua futura filha e a suplementação aparece como solução para contornar tal problema. Tal fato foi estudado por Martin et al. (2007), onde as matrizes foram ou não suplementadas, em condições de pastejo de forrageira de baixa qualidade durante o terço final da gestação. Após o nascimento todas as bezerras receberam as mesmas condições, até atingirem a maturidade sexual e serem submetidas à reprodução, quando as filhas de vacas suplementadas apresentaram uma taxa de prenhez de 93% e as de vacas não suplementadas apresentaram uma taxa de 80%.

Tabela 1: Efeito da suplementação proteica na performance de matrizes.

Fonte: Elaborado pelo autor. Adaptado de Martin et al. 2007.

Imediatamente após o desmame seria o período mais propício para recuperação do escore de condição corporal da vacada, uma vez que neste ponto do ciclo reprodutivo a exigência nutricional para produção de leite já deixa de existir e a exigência para gestação ainda é mínima, fazendo com que neste ponto a exigência nutricional total da vaca adulta seja muito próxima da exigência de mantença. Desta forma, caso a vaca adulta receba maior aporte de nutrientes, estes serão direcionados para a deposição de tecidos e consequentemente proverá a melhoria do escore corporal.

Fonte: Elaborado pelo autor. Adaptado de Ruechel, 2006.

O Escore de Condição corporal reflete diretamente no sucesso da concepção e taxa de prenhez durante a estação reprodutiva, sendo por isto de tamanha importância.

O que fazer para garantir alimentação de qualidade para as vacas no período da seca

Pensando em animais a pasto na época seca do ano, é indispensável que ocorra oferta adequada de forragem em quantidade e também em qualidade o que pode ser garantido através da oferta diária de 4 a 6% do peso corporal do animal em Matéria Seca Potencialmente Digestível (MSpd; Paulino et al., 2008), que é representada pela fração da matéria seca do pasto que pode ser aproveitada (digerida) pelo animal. Falar de oferta de matéria seca (MS) de pasto muitas das vezes não significa muito, devido à grande variação na composição desta massa, que pode ser composta por grande proporção de folhas ou de caules, podendo fazer com que exista oferta de MS de boa e má qualidade, respectivamente. O cálculo da MSpd se dá pela seguinte equação:

MSpd = 0.98 x (100 – FDN) + (FDN – FDNi) 

Em que: FDN = fibra em detergente neutro e FDNi = fibra em detergente indigestível

Para garantir a oferta adequada de MSpd de pasto, que pode variar de 45 a 55% da matéria seca no período seco (em pastos bem manejados), é preciso que um manejo adequado tenha sido feito antes, na transição águas – seca, fazendo o chamado Diferimento do pasto, através da sua utilização (rebaixamento) até as últimas chuvas e retirando o gado da área neste momento, conseguindo portanto, uma rebrota ainda vigorosa para sustentar a vacada na época de seca. Outra via seria realizar uma “reserva” de forragem durante o período das águas através da exploração de uma menor taxa de lotação, o que poderia refletir em menor eficiência de utilização do pasto, mas se apresenta como alternativa para os criadores que utilizam pastejo contínuo.

Tendo consciência da limitação imposta pelo pasto na época seca, ainda sendo ele diferido ou “reservado”, se faz necessária a suplementação das matrizes e tal suplementação pode ser feita apenas com mineral, que garantirá no máximo a mantença das vacas secas, pode ser feita pela oferta de proteinados de baixo consumo e também através do fornecimento de suplementos múltiplos. A suplementação de bovinos em pastejo deve preconizar a oferta de um teor mínimo de proteína bruta (PB) de 10% considerando o consumo de matéria seca total do animal, nível onde se atinge a otimização da digestibilidade da fração fibrosa (Detmann et al., 2014). Ao atingir o consumo de 14.5% de PB, é otimizado o consumo de matéria seca do animal em condições de pastejo (Detmann et al., 2014).

Em um estudo conduzido por Almeida (2017) foram utilizadas 80 vacas Nelore com peso inicial de 516 ±1.34 kg e 4.68 de escore corporal (escala de 1 a 9) no terço final da gestação durante a seca (Julho a Outubro), em pastos de Brachiaria decumbens. Neste estudo as vacas foram divididas de forma aleatória em 2 grupos, onde um recebeu o equivalente a 1 kg/animal/dia de suplemento e o outro recebeu apenas mistura mineral à vontade, isto até o momento do parto. O suplemento era composto por 24.65% de milho moído, 24.65% de sorgo moído, 45.7% de farelo de soja e 5% de núcleo mineral, apresentando o teor de PB de 28.6% (Tabela 2). A oferta de MSpd média durante o estudo foi de 9.2% do peso corporal dos animais. A suplementação das vacas com 1 kg/dia resultou em maior ganho de peso, melhoria de Escore de Condição Corporal e também maior peso dos bezerros ao nascimento, quando comparadas ao grupo que só recebeu mistura mineral (Tabela 3). Além disso, as vacas que receberam suplementação múltipla apresentaram taxa média de concepção de 74.1%, contra 67.1% para as vacas que receberam apenas mistura mineral.

Tabela 2: Comparação entre animais suplementados e animais a pasto.

Fonte: Elaborado pelo autor. Adaptado de Almeida (2017).

Tabela 3: Comparação entre com e sem suplementação.

Fonte: Elaborado pelo autor. Adaptado de Almeida (2017).

Estamos no período seco e temos a possibilidade de colocar em prática as ações recomendadas para a melhoria do desempenho das matrizes, o que se justifica com os bons preços de bezerro praticados atualmente.

Mantenha-se atualizado! Cadastre seu contato aqui, vamos te informar sempre que sair um novo conteúdo, em primeira mão!

     

    Leandro Soares Martins

    Gerente de Pesquisa do Centro de Pesquisa Nutripura, natural de Minas gerais, Zootecnista, Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Viçosa. Doutorado sanduíche na University of Queensland, na Austrália.

     

    REFERÊNCIAS:

    ALMEIDA, D.M. Effects of supplementation levels on performance and metabolic and nutritional characteristics of cows, suckling female calves and heifers on grazing. 2017. 89 f. Tese (Doutorado em Zootecnia) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. 2017.

    CALEGARE, L.N.P. Exigências e eficiência energética de vacas de corte Nelore e de cruzamentos Bos taurus x Nelore. Piracicaba, SP: ESALQ, 2004, 79p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia). Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz, 2004.

    DETMANN, E.; VALENTE, E.E.L.; BATISTA, E.D., HUHTANEN, P. (2014). An evaluation of the performance and efficiency of nitrogen utilization in cattle fed tropical grass pastures with supplementation. Livest Sci, 162: 141-153.

    DU, M., TONG, J., ZHAO, J., UNDERWOOD, K. R., ZHU, M., FORD, S. P., & NATHALIELZ, P. W. (2010). Fetal programming of skeletal muscle development in ruminant animals. Journal of Animal Science, 88, E51–E60.

    DU, M., HUANG, Y., DAS, A. K., YANG, Q., DUARTE, M. S., DODSON, M. V., & ZHU, M. J. (2013). Meat science and muscle biology symposium: Manipulating mesenchymal progenitor cell differentiation to optimize performance and carcass value of beef cattle. Journal of Animal Science, 91, 1419–1427

    DUARTE, M. S., GIONBELLI, M. P., PAULINO, P. V. R., SERÃO, N. V. L., MARTINS, T. S., TÓTARO, P. I. S., DU, M. (2013). Effects of maternal nutrition on development of gastrointestinal tract of bovine fetus at different stages of gestation. Livestock Science, 153, 60–65.

    FERRELL, C.L., JENKINS, T.G. Cow type and the nutritional environment: nutritional aspects. Journal of Animal Science, v.61, n.2, p.725-741, 1985.

    MARTIN, J. L., VONNAHME, K. A., ADAMS, D. C., LARDY, G. P., FUNSTON, R. N. (2007). Effects of dam nutrition on growth and reproductive performance of heifer calves, Journal of Animal Science, v. 85, n.3, p. 841–847.

    PAULINO, M.F., DETMANN, E., VALADARES FILHO, S.C. Bovinocultura funcional nos trópicos. VI Simpósio de Produção de Gado de Corte e II Simpósio Internacional de Produção de Gado de Corte, 2008, Viçosa, MG. Anais… Viçosa, MG: VI Simcorte, 2008, p.275-305.

    VASCONCELOS JLM, MENEGHETTI M. Sincronização de ovulação como estratégia para aumentar a eficiência reprodutiva de fêmeas bovinas, em larga escala. In: Simpósio de Produção de Gado de Corte, 5; Simpósio Internacional de Produção de Gado de Corte, 1, 2006, Viçosa, MG. Anais… Viçosa, MG: UFV, 2006, p.529-541.