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publicado em 14 de dezembro de 2020

A CONTRIBUIÇÃO DA PLANTA FORRAGEIRA PARA O SISTEMA DE INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA

A Integração Lavoura-Pecuária (ILP) é uma modalidade/estratégia de produção que pode integrar culturas anuais e a produção animal, seja no mesmo espaço, em consórcio, rotação ou sucessão e tem por objetivo potencializar os ganhos do sistema por meio da sinergia entre a produção vegetal e animal.

Dentre os benefícios da ILP, podemos citar: o aprofundamento do sistema radicular da planta forrageira, que age como um descompactador de solo, melhorando sua estrutura e maior exploração do perfil do solo permitindo uma maior ciclagem de nutrientes, além de abrir caminho para as raízes das lavouras subsequentes; a cobertura vegetal, que é proporcionada pela massa residual da planta forrageira e serve como proteção física da superfície do solo e por consequência diminui a erosão laminar e atenua a temperatura superficial do solo; devido ao maior período de ocupação da área, o período de pousio (tempo sem uso produtivo ou econômico) do solo é menor; a quebra do ciclo de pragas e plantas daninhas na área por meio da rotação de culturas; a valorização do bem imóvel com a capacidade de justificar o investimento na área em fertilidade, aquisição de novas áreas e investimento em infraestruturas; e a diversificação da renda, pelo fato de vários produtos serem produzidos e comercializados dentro da mesma área.

Os aspectos chave da Integração Lavoura-Pecuária:

  • Culturas Forrageiras
  • Resíduos das culturas
  • Produção animal
  • Ciclagem de nutrientes

Adaptado de Reddy et al., 2016.

Tendo em vista todos estes benefícios que a ILP pode proporcionar, escrevemos um artigo que responde a seguinte pergunta: Quem pode fazer este sistema? Apenas o agricultor mais tecnificado ou o pecuarista acostumado com a lida?

O pasto em um sistema de integração atua em benefício do sistema em diversas formas (Martin et al., 2020):

Conservação do solo: A agregação e estabilidade do solo são geralmente relacionadas de maneira positiva com a quantidade de Matéria Orgânica. O pasto quando associado as culturas anuais, independentemente de seu uso, podem melhorar significativamente a estrutura do solo e, de maneira geral, sua qualidade, ainda mais quando associado a resíduos de culturas e esterco animal (Franzluebbers e Gastal, 2018).

A estabilidade da estrutura do solo determina sua habilidade de resistir e se recuperar de adversidades, como erosão por exemplo. Os fatores que favorecem a maior conservação do solo são:

  • O maior desenvolvimento de sistemas radiculares em camadas rasas e profundas do solo, favorecendo a manutenção da estabilidade do solo e a diminuição das perdas de partículas;
  • O maior teor de Matéria Orgânica, aumentando a estabilidade dos agregados do solo;
  • Maior porosidade do solo, relacionada ao maior desenvolvimento radicular, maior conteúdo de Matéria Orgânica e atividade biológica sob as pastagens, favorecendo a infiltração de água, o que leva a redução do escoamento da água (Carroll e Tucker 2000);

Por estas razões, a erosão do solo diminui exponencialmente com o aumento da cobertura vegetal. A diminuição na erosão do solo diminui também a perda de nutrientes, particularmente o nitrogênio (N) e o fósforo (P), diminuindo assim as perdas de produtividade das culturas e os danos ao meio ambiente.

Fornecimento e reciclagem de nutrientes: Os microrganismos do solo controlam grande parte dos ciclos de carbono (C), nitrogênio (N) e fósforo (P). Sua biodiversidade e atividade são mais elevadas em solos com menos perturbações, como os que estão sob pastagens, especialmente se plantadas em rotação de cultura, do que em solos com lavoura frequente, como nas que são cultivadas anualmente e semeadas em solos nus (cultivo tradicional). Além disso, a introdução de pastagens em sistemas de cultivo pode aumentar o fornecimento de nutrientes do solo por meio de dois mecanismos principais:

  • Maior desenvolvimento radicular do que o observado nas culturas anuais, permitindo maior mobilidade de nutrientes no perfil do solo e secreção de mais exsudatos radiculares e maior desenvolvimento de microrganismos do solo, incluindo fungos, que contribuem para melhor utilização de P e K;
  • Grandes quantidades de C pelas gramíneas e maior decomposição através da atividade de insetos e microrganismos, o que ajuda a melhorar a estrutura do solo e espalhar o esterco e seus nutrientes.

Quanto maior a duração da pastagem em uma sequência de cultivo, maior é a sua influência no armazenamento de C orgânico no solo e na mitigação das perdas de N no ambiente.

Em sistemas integrados de produção, quando termina o ciclo das pastagens, grande parte da matéria orgânica é mineralizada, o que leva a liberação de N mineral nos solos. A quantidade de N mineral disponível para a próxima cultura varia de 20 até mais de 120 kg N/ha dependendo da espécie semeada COMIFER (2011).

 

Retenção de água no solo

Qualquer que seja o tipo de sistema agrícola, as pastagens plurianuais e de curta duração impedem fisicamente o fluxo de água, o que diminui o escoamento e aumenta a infiltração de água no sistema.

 

Controle Biológico de pragas e daninhas

A diversificação de culturas é um componente chave para o controle de pragas. Ela permite que os agricultores alternem espécies de culturas hospedeiras e não hospedeiras em uma área, reduzindo assim a capacidade das pragas de encontrar hospedeiros ou ambientes adequados.

Para as plantas daninhas, o período de pasto fornece condições de crescimento particularmente desfavoráveis, independentemente do tipo de sistema agrícola, por várias razões:

  • As plantas em pastagem competem intensamente por água, luz e nutrientes (graças a rápida formação do dossel forrageiro);
  • Ausência de preparo do solo e presença permanente de cobertura vegetal podem formar uma cobertura vegetal que suprime as plantas daninhas. A cobertura do pasto impede que as sementes de plantas daninhas atinjam o solo, o que reduz a renovação do banco de sementes;
  • Algumas espécies liberam compostos alelopáticos que inibem o crescimento da planta daninha.

Por quanto tempo utilizar o sistema ILP?

O tempo da utilização do sistema de ILP depende de alguns fatores, como a quantidade de massa de forragem que é produzida, que pode ser afetada principalmente pelo regime de chuvas, teores de nutrientes no solo e a qualidade do plantio.

Para garantir a qualidade do plantio, é de grande importância realizar a coleta e amostragem de solo de maneira adequada, como explicamos neste artigo.

A escolha da semente da forrageira também é imprescindível para obtenção do sucesso da operação. No artigo “Saiba o melhor custo-benefício ao comprar uma semente” explicamos como realizar esta escolha e os fatores que devem ser levados em conta.

Para a determinação do período de uso dos pastos é fundamental ajustar a lotação animal de acordo com as metas de manejo específicas para cada espécie, aliando as estratégias nutricionais de suplementação de acordo com o objetivo do sistema de produção, visando a utilização correta dos pastos, evitando superpastejo e sobrepastejo, e assegurando melhores índices zootécnicos e econômicos.

Diante dos benefícios da integração, quais os incrementos em produtividade de forragem e animal?

A maior produção de biomassa é um dos aspectos chave para a ILP, por promover maiores níveis de matéria orgânica (MO) e melhoria nas propriedades do solo, o que contribui para a ciclagem de nutrientes e manutenção da água, melhorando a eficiência de utilização dos nutrientes reduzindo assim os custos e os impactos ao meio ambiente. Dias et al., (2020) avaliaram a produção de biomassa em espécies de Brachiaria spp. de P. maximum em um sistema integrado lavoura-pecuária na sucessão soja, em comparação com cultivo de milho (Figura 2).

Figura 2 – Diagrama temporal dos sistemas de cultivo com as forrageiras Brachiaria spp. e Panicum em um sistema de integração lavoura-pecuária (imagem superior) e um sistema com milho em sucessão à soja (imagem inferior).

Fonte: Adaptado de Dias et al., 2020.

Nos sistemas de cultivo com capins houve maior produção de biomassa que a cultura do milho (Figura 3). Além da maior produção de biomassa, têm contribuição do animal por meio das fezes e urina, com o retorno de parte dos nutrientes para o solo (He et al., 2016), e contribuição dada pelo pastejo, promovendo o crescimento mais vigoroso das gramíneas forrageiras, tanto da parte aérea quanto do sistema radicular.

Figura 3 – Produção de biomassa de sistemas de integração com diferentes espécies.

A maior produção de forragem em sistemas integrados se deve, principalmente, pela melhoria do solo, resultando em incrementos em produtividade não somente no período seco, mas também posteriormente caso seja utilizado para pastejo no próximo período chuvoso. Em sistemas integrados com capim marandu, a taxa de acúmulo de forragem foi 166,67% maior na ILP no período seco e 160,00% maior durante as águas, resultando em maiores massa de forragem, onde no sistema ILP apresentou durante as secas e as águas incremento de 40% e 105,21% (Silva et al., 2020).

Tabela 1: Respostas das forrageiras em diferentes sistemas de produção

Fonte: Adaptada de Silva et al. (2020).

Este aumento da produção ilustra justamente o que discorremos até aqui, a integração Lavoura-Pecuária proporciona uma melhoria do solo (profundidade de raízes, melhor teor de matéria orgânica, a adubação de sistemas melhora os teores de nutrientes no solo, etc.).

Como consequência da maior produtividade de forragem, a taxa de lotação em sistema ILP foi 30% maior nas secas e 22,92% nas águas em comparação com a monocultura, resultando em aumento de 3,33 arrobas por hectare/ano a mais do que na monocultura (Silva et al., 2020).

Tabela 2: Respostas animais em diferentes sistemas de produção

Fonte: Adaptada de Silva et al. (2020).

As preocupações com os sistemas de ILP costumam girar em torno das reduções da produção agrícola após períodos de pastejo devido a ação de compactação do solo – pelo casco – ou pelo consumo de resíduos que, de outra forma, serviriam como cobertura do solo. De fato, o que ocorre é exatamente o inverso! As áreas de culturas que são pastejadas em sistemas de ILP no período seco tendem a produzir mais do que áreas não pastejadas. Quando as culturas de cobertura são pastejadas, os rendimentos das culturas subsequentes aumentam, com valores reportados entre 15 e 25% a mais na produção de grãos após pastagens (Crusciol et al., 2015). Carvalho et al. (2018) também reportaram aumentos de 3,4%, 4,7%, 10,4% e 10,8% para soja, feijão, arroz irrigado e milho, respectivamente. Esse resultado contradiz o paradigma e mostra que as preocupações com os efeitos prejudiciais dos animais em pastejo não se mantêm quando as intensidades moderadas de pastejo e as práticas agrícolas de conservação são respeitadas.

Além disso, como os mercados de grãos e pecuário costumam exibir tendências complementares, a diversificação da produção torna a operação menos sensível às flutuações de preços do que as operações de uma única cultura. Em linhas gerais, a integração Lavoura-Pecuária, quando feita de maneira correta, tende a aumentar o lucro sustentável da empresa rural.

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    GUILHERME PORTES SILVA

    Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Possui mestrado, doutorado e pós doutorado em Ciência Animal e Pastagens pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo (ESALQ/USP). Fez o doutorado sanduíche no Institut National de la Recherche Agronomique (INRA/França). Possui especialização em MBA em Agronegócio e Gestão de Negócios, pelo PECEGE (ESALQ/USP). Tem experiência na área de Forragicultura e Pastagens, principalmente nos seguintes temas: ecofisiologia e morfogênese de plantas forrageiras, manejo do pastejo e comportamento ingestivo de bovinos em pastejo.

     

    REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

    Carroll C, Tucker A (2000). Effects of pasture cover on soil erosion and water quality on central Queensland coal mine rehabilitation. Trop Grasslands 34:254–262

     

    CARVALHO, Paulo César de Faccio et al. Animal production and soil characteristics from integrated crop-livestock systems: toward sustainable intensification. Journal Of Animal Science. [s.i.], p. 3513-3525. ago. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1093/jas/sky085. Acesso em: 16 jul. 2020.

     

    COMIFER (2011) Calcul de la fertilisation azotée, Guide méthodologique pour l’établissement des prescriptions locales, cultures annuelles et prairies 87 pp. Disponível em <https://comifer.asso.fr/ images/publications/brochures/BROCHURE_AZOTE_ 20130705web.pdf>

     

    Crusciol, C.A.C., Nascente, A.S., Borghi, E., Soratto, R.P., Martins, P.O., 2015. Improving soil fertility and crop yield in a tropical region with palisade grass cover crops. Agronomy Journal 107, 2271e2280.

     

    Franzluebbers AJ, Gastal F (2018). Building agricultural resilience with conservation pasture-crop rotations. In: Agroecosystem diversity: reconciling contemporary agriculture and environmental quality. Elsevier, Burlington, pp 109–121

     

    MARTIN, Guillaume et al. Role of ley pastures in tomorrow’s cropping systems. A review. Agronomy for Sustainable Development. Disponível em < https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs13593-020-00620-9>. 12 maio 2020.

     

    SILVA, Flabiele S. da et al. Herbage accumulation, nutritive value and beef cattle production on marandu palisadegrass pastures in integrated systems. 2020. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10457-020-00508-3. Acesso em: 15 jul. 2020.